quarta-feira, 15 de abril de 2015

E o amor finalmente me vem brando, sem contradições. Percebe-se que só após o mar acalmar, que é possível se contar os grãos de areia. São muitos espalhados comigo junto ao chão. A revolta existe ainda. Necessidade de gritar, espernear, julgar o mundo insano por conseguir o que ele quer. Só que não dá para se revoltar todos os dias com seu reflexo no espelho, então engulo à seco todo esse amor, e preparo um café.

O telefone está ali. O computador jogado no sofá da sala. Sem sinal de esperança neste apartamento. Ouço apenas músicas instrumentais, pois assim  construo uma própria letra e não fico a imaginar relacionamentos perdidos. O que hoje em dia não está perdido?

Me matriculei na aula de violão e na academia, comprei roupas novas, pintei o cabelo e meu medo de avião será enfrentado pelas passagens que se encontram na gaveta do escritório. Quando a gente perde muito algo que gosta, o segredo é fazer algo que não se gosta tanto. E o amor finalmente me vem brando, sem contradições.

O que me preenche é saber que meus dias, apesar de lotados com faculdade, trabalho, compras e dietas,

ainda me resta um pouco de você

em cada canto que olhar.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Nossa terceira chance

Quero te levar para dançar. Não em lugares lotados, cheirando cerveja. Quero te levar para dançar na rua, correndo pela avenida vazia. Dançar sem ninguém ver. Dançar pulando e sorrindo. Como se só nós conseguíssemos existir. Só a gente existe.

Os planos de fugir para longe, ainda são seus. Me leva para o passado, me faz te sentir olhando para o chão enquanto fugia dos meus olhos. Amizade vira amor, não tente provar o contrário. Sei que não quer tentar.

Pegue seu cartão de crédito e compre duas passagens para outro país. Diz que não quer ouvir um não, que seu coração é fraco para receber outro não. Larga dele, tempo não quer dizer amor. Deixa sua vida de mesmice, e vira um só comigo. A gente é um só.

Me busca no seu carro e sai correndo para outro estado, não respeita minha opinião, me protege de você. Diz que quer minha proteção.

Não me manda arrumar outra pessoa pois mereço algo que me faça feliz. Tentei organizar minha vida, e veja só, coração em pedaços e sozinho outra vez. Tenta voltar nem que seja para ir embora comigo por alguns dias, quem sabe não queira voltar.

Nossos amigos dizem que não é mais a mesma, que o mundo virou seu maior desgosto. Te disse, minha menina, não me manda arrumar outra pessoa. Meu mundo é total desgosto também.

Te ouvi e arrumei alguém qualquer por aí, alguém que nem sequer olhou para trás.  Ouvi como sei que me ouve toda vez que se sente sozinha e me liga chorando pela madrugada. Largo meu coração em um canto qualquer e corro para qualquer lugar onde esteja, pois é lá que devo estar.

Não volte se não for para viajar pelo mundo, descobrir sorrisos e beber comigo em um motel qualquer. O corpo não aguenta mais tanta falta de carinho no mundo, meus olhos sofrem ao te ver sem onde ir.

Vem sem medo. Não me coloca no seu carro e me larga em casa como fez dessa última vez. Sobe comigo, insiste que sou uma idiota, mas que quer, me quer. Sei que você quer.

O mundo pode ser nosso.

Só desiste de tudo,


 e corre pra mim.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sobre amor e outras dores

Ontem estava lendo um dos meus escritores preferidos, Fabrício Carpinejar, e fiquei imaginando razões para que hora ou outra, nos esquecemos de ir atrás das coisas que gostamos. Fazia meses que não visitava o blog empoeirado de sangue pulsando que Fabrício expõe. Cru. Visível. Sem espaços vazios. Logo de cara, veio o trecho:

"Amor é jamais anular a possibilidade do outro de errar. Mesmo que custe mágoa, dor, ódio. 


É se oferecer inteiro, podendo ser enganado a qualquer momento. É se doar inteiro, permitindo que nossa companhia demonstre, dia a dia, quem ela é.

Só se valoriza a escolha pelo tamanho da renúncia.

Só há intimidade com liberdade dentro.


Só o amor ingênuo é verdadeiro."

Ficou passando pela minha cabeça o quão simples foi para ele para cuspir essas palavras. Nada ali é aquém ao que é jogado na cara das pessoas todos os dias. E mesmo assim, insistem em acreditar no contrário ao que é dito acima. Creio que a maioria das pessoas renunciam à si mesmo quando jogam uma oportunidade de ser feliz fora. É a paciência das pessoas que se esvai. Hoje em dia é mais fácil trocar uma paixão por outra. Sem perguntar se todas as palavras agressivas, foram por medo. Ninguém no mundo sabe mais lidar com amores intensos, e os amores intensos, são as melhores experiências da vida. E as mais cruéis.


Engraçado é que ao mesmo tempo que se ama um autor, escritor, ou poeta, pode também discordar demasiadamente. Sem interferir na sua admiração. Ocorre isso diversas vezes com minha postura ao ler textos sexuais do Bukowski, por exemplo. Só que ainda falando de Carpinejar, que foi o motivo de começar toda essa análise em uma tarde chuvosa de sexta, é que ele possui opiniões generalizadas. Tais como:


"Ex é passado. Não precisa de nenhum ex. Se precisasse, ainda estaria com ele.

Ex não pode ser amigo. Nem melhor amigo. Nem confidente. Só se ele mudou de sexo."

Não, Fabrício! Não! Ex é sim passado, mas há de se precisar de alguém que fez parte da sua vida, vez ou outra. É o que há de mais bonito. Para recolher dores, fantasiar medos, ter um colo que já foi seu antes, mas que não é nada mais além do que isso. Um colo. Se o coração ainda pulsa, se não conseguimos ter um ex como amigo, recebe-lo com um sorriso, ah, não é ex... Ainda é desejo. Já recorri à vários ex's ao passar da minha vida. Seja para lamentos, seja para perguntar se a vida anda bem, seja para comentar sobre uma música antiga que era a trilha sonora, mas hoje só é isso, uma música antiga. Ter passado é bom, significa que algo valeu a pena. E amores, não podem ser tratados como escória.  Talvez Carpinejar pense como Chico, "Amores serão sempre amáveis, futuros amantes, quiçá." E veja só, que sofrimento há nisso?

O que mais agrada nos textos de Carpinejar, talvez seja o tapa na cara que é desferido. A discordância de opinião com o resto do mundo. E quem diz que o tempo resolve tudo, bem, talvez devesse mudar de opinião.

"Não deixo o tempo perdoar em meu lugar. Não darei a ele os créditos de minhas dores.
 tempo organiza, mas não define.
O tempo esfria, mas não cura.
O tempo estanca a hemorragia, mas não cicatriza.
O tempo elimina a carência, mas apaga o desejo.
O tempo acalma, mas não garante o entendimento.
O tempo adia as dúvidas, mas não consolida as certezas.
O tempo finge que avançamos, mas não saímos do lugar.
O tempo serve para diminuirmos a importância das ofensas, mas não resgata os elogios que não serão feitos."

http://carpinejar.blogspot.com.br/

sexta-feira, 27 de março de 2015

Não será eu

Quando pensei que não existia nenhum restinho de você dentro de mim, quando deslumbrei que o tempo, pouco tempo, havia melhorado tudo ao meu redor, e quando delirei que talvez fosse melhor realmente parar de chorar pelos cantos, sua notícia corre por todas as minhas veias e me faz ser essa menina fraca, isolada e com uma tristeza descomunal novamente.

A facilidade de ir embora, de largar em qualquer lugar como se fosse um guardanapo velho, e imaginar que, quem sabe, fique tudo melhor assim. A frieza, a força que tirou sabe se lá de onde para sair por aí, cantando felicidade, sorrindo pela fumaça do cigarro e vivendo uma vida que talvez seja a melhor para você. Conversando com pessoas vazias, se tornando uma pessoa vazia, sendo quem só me trará vergonha de sentir esse tal amor.

Temo que será a única que meu coração não vá querer voltar atrás. Foi tudo tão insensível, feito com tanta brutalidade sobre algo que não merecia tanta indiferença, e rezo, por Deus, rezo para que meu coração não queira jamais voltar atrás.

Pelas noites em claro que passei chorando e abraçando todos e cada um de meus amigos. Pelos dias em que quis parar tudo e sair do meu corpo só pra não sentir na pele. Pelas tardes de chuva que me forcei a sair e correr por não ter pra onde ir. Pelos remédios que tomei para dormir, e não consegui pegar no sono. E, principalmente, por tudo o que você jogou fora. Sem pensar sequer uma vez, também lhe desejo tudo que houver de melhor no mundo, mas é um alívio saber, que dessa e na próxima vez, não será eu.

domingo, 15 de março de 2015

Hoje, a partir, de

A partir de hoje, começarei à tomar café no sofá, sem fumaça de cigarro em meus cabelos. A partir de hoje, jogarei meu salto em um canto qualquer, limparei a maquiagem do rosto e não pensarei em usar tão cedo. Falarei que estou cansada e fecharei todas as portas da minha casa, do meu quarto, de mim. A partir de hoje, não ouço mais músicas tristes. Não ouço mais músicas felizes. Não quero fingir ser alegre, e não quero lembrar tanto sobre a tristeza. A partir de hoje, não irei engolir meus remédios com gosto de lágrimas. Não irei responder mensagens, tampouco, criá-las. Quero que passe longe de mim convites, cobranças, coração. 

A partir de hoje, não irei mais fazer comida, enlatados serão meu prato preferido. Meus gatos vão me ter vinte e duas horas por dia e meu cabelo vai crescer até as costas, pois não verei o tempo passar. A partir de hoje, vou ler todos os meus livros, estudar todas as apostilas, e entender quaisquer filmes. Não vou ter beijos em minha boca, mãos em minha pele ou peito colado no peito. Mandarei embora qualquer forma de possibilidade de amor. 

Não atenderei telefonemas, a partir de hoje. Não direi que estou com saudades ou que preciso ver alguém. Mandarei cobrir todas as minhas janelas com cortina preta e comprarei um novo cobertor. A partir de hoje, não mostro para ninguém os melhores restaurantes, não levo aos melhores lugares, ou planejo viajar para longe. A partir de hoje, mandarei as cartas feitas no computador para à lixeira e as escritas para o fundo do armário. Não aceitarei convites de festas, bares e filme em casa. Serei somente só, a partir de hoje.


A partir de hoje, não irei mais chorar, bem menos rir, mas ao menos, irei esquecer. 



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Esporádico


Canto e conto de amores desde que nasci. Na escola fui a primeira a me apaixonar, e beijei mais cedo do que aprendi amarrar o sapato. Sofri mais que coração de gente grande, mas era opção. Sofrer é opção.

Nunca fui a melhor em nada, e sabia disso, por isso escolhi o amor.

Acredito que descobri sobre sentimentos com meu primeiro cachorro, os pais não sabem, mas as crianças são muito sozinhas. Meu cachorro deitava comigo na lavanderia em noites de festa barulhenta e me acompanhava quando ia almoçar sozinha no quarto. Meu primeiro pedido de desculpas, foi para ele. Se para os adultos assumir um erro é devastador, imagine só para uma pessoa de seis anos. Gritar com meu cachorro me fez descobrir o quão é difícil ter medo de perder. Então vi que amor é gritar, berrar, e se arrepender de ter feito isso, mas saber que vai fazer de novo, porque a vida não é sorriso todo dia. Bóris sabia que o amava, por isso mesmo quando eu estava de cara fechada, sempre veio me pedir comida na beirada da cama. 

Quando falamos de primeiro amor, sempre vem o amigo do prédio, a menina do pai bravo no outro lado da rua, ou algum esteriótipo que cada um e todos tem uma história para contar. 

Acredito no amor porque ele não se trata de pessoas.  As pessoas estão ali e dão veracidade ao amor, sai da utopia, foge do platônico. Os momentos estão ali para causar arrepios, sufocos, inverdades, pensamentos, ilusões. As histórias e lembranças que fazem virar a cabeça, querer fazer voltar atrás ou seguir em frente. 


Saio por aí falando sobre amor pelo fato dele viver em tudo que sinto. Nos meus amigos, nos meus gatos, no sorriso entregue à moça que limpa o chão onde trabalho, em uma cena de filme inesperada.

Ele vive na solidão. Na vontade de explodir e mandar a pessoa nunca mais aparecer por perto, e na vontade de ligar e pedir pra não ir embora tão cedo, não ir embora jamais.



Podem se espantar e até julgar pela minha vontade em acreditar no amor e ceder a mão, o braço, o corpo para quem precise.

Só que a vida tem dessas coisas:

Os tolos que não acreditam, e os tolos que dão graças aos céus por conseguirem acreditar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Bem me quer



Sempre fui apaixonada por plantas. Árvores, ramos, folhagens. Nunca entendi muito bem a atração das pessoas com rosas vermelhas e buquês recheados de boas intenções. Na verdade, uma só flor é o suficiente, o que me ganha. Guarde em um livro, diário ou no cabelo, uma flor basta. Apesar de gostar do verde, do ato grosseiro das plantações nascerem sempre pra cima, como se implorassem algo aos céus, tenho uma queda por orquídeas azuis. Ninguém nunca se lembra delas. Os girassóis são endeusados em músicas, as margaridas amadas pelas abelhas e as rosas o cardápio principal dos enamorados. As orquídeas, bem, elas só estão ali.

Apresento aulas de química para universidades e nunca soube muito bem pensar com a cabeça fora da lógica. Tudo sempre existiu tal como as fórmulas e compostos que existem nos livros. A vida com regras é mais segura, penso eu. 

No final do ano de 1999, quando despedi dos meus alunos do último ano, torcendo para que todos fossem felizes em suas carreiras, notei que um deles não se apressava para ir embora. Caminhando para minha mesa, entregou um envelope com apenas uma folha dentro e saiu. Meu coração gelou pois jamais permitiria tal ato, mas desta vez, não entrei em discórdia com o rapaz que levava consigo, apenas um caderno e uma caneta surrada de mordidas. 

Segurei o envelope com as duas mãos, e com o pensamento alto, comecei a ler.

"Não se assustes com o destino. Pense que sou como uma das árvores que observa quando sai do seu carro, talvez nunca tenha me notado, mas sempre estive ali. Prefiro não me importar com grandes gestos, visto que sua maior fraqueza provavelmente seja vinhos e compras de verduras na feira de domingo. Nunca fui homem o bastante para lhe cortejar, mas sempre fui muito cavalheiro para notar sua infelicidade e tentar anota-las para um dia, vencê-la com minha alegria. Olhe para mim, um rapaz que acabou de formar, mal sabe enfrentar o mercado de trabalho e já tentando lhe ganhar com poesias. Pois saiba, sei que teu amor não é fácil, e que não lhe ganharei com chocolates e presentes, mas na vida, o que se guarda são pedaços de papel manchados pelo tempo. Guarde com você, pra que um dia ele seja o motivo de te ter comigo."

No final da folha de caderno havia somente uma pétala vermelha, como se ao passar pela floricultura, alguém deixasse cair e o rapaz pegasse ao vento. Jamais gostei de rosas, do famoso clichê da vida, guardei em algum lugar da pasta e voltei a organizar minhas coisas. 

Hoje, após dezesseis anos de casada com o rapaz da folha de caderno, percebi que nenhuma pessoa ia adivinhar que adoro orquídeas, tampouco as azuis. Ninguém iria me entregar uma só flor e colocar no meu cabelo, para mais tarde, esquecê-la em um livro e deixa-lo jogado pelos cantos. 

O mundo não costuma ser perfeito, 

e mesmo que ele viva à repetir: "Nem tudo são flores", 

a folha de papel manchada pelo tempo,

insistirá em discordar.