domingo, 28 de abril de 2019

Não tem mais por onde bater

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*Ligação finalizada*

Com os olhos ainda incrédulos e a boca trêmula tentei ao máximo não discar novamente seu número. Número que apaguei, decorei, salvei e apaguei novamente. Não quis ir até a cozinha comer o último pedaço de bolo guardado na geladeira pois engasgaria com as palavras que ainda tenho para dizer - e já lhe disse todas elas tantas vezes. Quem sabe não estava muito ocupado assistindo um daqueles seus programas favoritos e não ouviu direito.

Você ouviu direito? Talvez o barulho do chocalho do seu sobrinho atrapalhou e achou melhor deixar a conversa para depois. Deixar a gente para depois. 

Sei que cansou de tentar acreditar na minha ideia de que nós dois juntos é melhor do que você sozinho, mas quem mais iria ver graça no seu jeito manso e andar distraído? Até seu cheiro de palheiro misturado com perfume me faz ter raiva da falta que faz. O barulho do seu carro na porta da minha casa e a postura embaraçada quando quem abre a porta é minha mãe.

Agora fumo mais cigarros e bebo mais cerveja do que o normal. Conheci dois ou três bares que não preciso te procurar pelos cantos e meus amigos até fazem piadas sobre rapazes bonitos me olhando. Só que quando chego em casa e deito no travesseiro sabendo que a ressaca de fumo e bebida vai me matar no outro dia, não sobra espaço para ser feliz. As lágrimas saem mais fáceis do que seu adeus saiu da boca e seu olhar desviou do meu no quarteirão da esquina.

Todos os dias é aquela velha história de não bancar o poeta para te esquecer. Aquela música bonita que toca na rádio nem fala mesmo sobre a gente. Ninguém mais fala.

É por isso que quando me estremeço de saudade - só me resta a ligação finalizada.

















domingo, 3 de julho de 2016

"De repente do pranto fez-se o riso"




Meses atrás uma pessoa me questionou na mesa do bar o motivo de falar tanto sobre amores antigos e não sentir vergonha de dizer que apesar dos contratempos, ainda tenho lugar no peito para cada um deles.  Na hora não soube como responder algo que ao meu ver é considerado óbvio demais. E acredito que percebi na pessoa o olhar de indignação e palavra alguma bastaria para compreender.


E são nessas situações que me vejo feliz de ter cultivado pessoas que foram embora, e sim, elas foram embora. Muitas vezes as mandei ir, outras tive de ser retirada aos ponta pés, em poucas... O mundo fez questão de desacolher. A verdade é que essas pessoas sentavam na mesa do bar e me entendiam quando dizia que era pra sempre. Essas mesmas pessoas, me procuram uma vez ao ano para dizer que passa frio em outro país mas que lembra da receita do meu chá de limão, ou que precisa saber o nome da loja onde comprei aquela jaqueta e se não gostaria de tomar um café pra conversar sobre a vida, que anda difícil demais.  Já acolhi pessoas que fiz sexo loucamente em todos os cantos da minha casa e hoje choram em meus ombros desencontros de outros amores. Já não sou quem está em sua vida, mas faço parte da vida delas. 

Quando pensei em responder aquela pessoa na mesa do bar, que me dizia com um sorriso debochado o quanto é frustrante ser como sou, já que corro atrás de pessoas que não dão me dão valor, achei que seria melhor concordar.

Metade do mundo não irá se encaixar no seu modo de pensar e não adianta quantas vezes você tente usar o amor como desculpa, as pessoas não costumam desculpar o amor. Não é que na vida a gente não guarde mágoas ou fique chateada da pessoa não responder uma carta de saudades. Guardo mágoa, fico chateada, mas de que adianta? 

O tempo passa para todos e é normal sentir preguiça das pessoas vez ou outra. Sinto preguiça das pessoas a maior parte do tempo, por isso é tão bom quando me bate aquela vontade, abro o email e mando para alguém: "Como anda as coisas por aí? Que saudades estou. Espero que fique bem." Porque na verdade, verdade mesmo... Todo mundo acaba por ir embora, mas é tão bom saber que vez ou outra tem um abraço pra voltar. 

E você, pra quem queria dar um abraço de saudade hoje?


* Titulo readaptado do soneto da separação de Vinícius de Moraes

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Era pra ser o nosso ano



Segurei o cigarro entre os dedos e observei o mar bater na areia como se as ondas voltassem para casa.  Caminhei da praia até o alto de uma pedra, onde não havia vendedores, salva vidas ou crianças brancas com protetor solar.

Não gosto de praia. Pessoas felizes com areia entre os dedos, sal na pele e gotas de picolé sujando o queixo, tudo isso me causa arrepios. Era ali que estava, entre pessoas jogando bola, acertando cabeça de idosos sem querer e sorrindo sem graça com marca de óculos no rosto.

A verdade é que todo coração despedaçado procura algo de errado no mundo para encarar seu próprio desalinho. 

O que acontece quando os meses passam tão rápido e na sua mão continua o mesmo cigarro esperando a última tragada? 

Era pra ser o nosso ano, combinamos isso há um ano atrás enquanto tomávamos aquele chopp barato. Nenhum e-mail. mensagem ou sorriso inesperado foi encontrado. 

Respirei como se fosse um alívio ter forças para continuar, mesmo sem entender o que acontecia. Tal como um cachorro que foi resgatado e parou em um canil, mas acha que a jaula é pior do que viver na rua. Nunca sabemos se alguém virá nos adotar, mas o mundo nos joga sempre em um abrigo qualquer com a esperança que sim.

Me criei pelas beiradas, como quando acaba a energia pela noite e não sabemos andar pela casa. Jurei que iria aparecer com um riso rouco, lanternas e confessar que era tudo uma brincadeira. Tive que aprender a fazer fogo para enxergar que suas coisas não estavam mais por lá e o calendário marcava outro dia, mês e agora, ano.

Tudo bem, não doeu tanto ver que os dias passavam mais lentos do lado de cá. Por aí o ano pareceu carnaval, sambou com os confetes e pedaços do peito colorido que lhe entreguei. Pro teu coração covarde, tudo sempre foi festa.

Sua imagem se tornou apenas um grande ponto de interrogação na garganta e um choro consumido pela minha falta de adestramento emocional. 

Não gosto de praia, mas hoje me sinto bem com os pés na areia. De certa forma te imitando, é bom saber que vou começar o ano com algo que não gosto. 

Era pra ser o nosso ano e se tornou apenas o seu.


Já que foi embora por descobrir que mesmo na praia tudo não é tão perfeito assim,

E não gostava mais de mim.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A gente não sabe dizer adeus




Cresci em uma família onde o amor era cantado em sambas e discos de LP. Tudo que era para ser aprendido e estudado sobre o tal amor, observava nos olhos de meu avô, enquanto olhava para a rua sem movimento e tomava sua cerveja de domingo.

Minha avó dizia que as músicas serviam apenas para alegrar as noites em salões de dança, mas meu avô nunca saia para dançar. Quando a música invadia a casa, todos os netos e filhos sabiam que era hora de sair dos quartos e acompanhar os passos acelerados de minha avó levando azeitonas e azeite para acompanhar a cerveja na varanda.

A tristeza de ser criança é que observamos o mundo com olhos novos e nem sempre temos explicação para isso. No sorriso daquele homem sentado na varanda, se passavam as letras das músicas, os dias em que pegou na mão de minha avó e beijou na frente do portão. Rugas de antigas namoradas que não viu envelhecer, tampouco sabia onde estavam. No sorriso de meu avô, com a agulha da vitrola arranhando o disco, se passava o tempo.

Anos depois, assim que meu avô morreu, a música continuou. 

Minha avó deixava ela por todas as partes e confessou não ter mais idade para ir em salões de dança. Como se confessasse ao mundo, que não havia mais motivos para se alegrar.

Hoje, nos olhos de minha avó, consigo ver as rugas de meu avô, a época em que namoravam de mãos dadas no pátio da escola e se beijavam em frente ao portão. Enquanto toca Noel Rosa, consigo sentir o cheiro de peixe assando no forno e percebo vidros de azeitona e azeite fechados na dispensa. 

Tento não sair de perto, mas toda vez que percebo em seu olhar as lembranças de meu avô, pergunto se não quer que vou até a padaria comprar pão.

 Lembranças precisam de solidão.

O amor nasce em todo lugar. Em uma rosa morta no chão que vai para o cabelo de uma menina. No suspiro nervoso e na vontade de desistir ao dizer "sim" na hora do casamento. O amor está até mesmo nas canções e histórias tristes do passado. 

O amor está em cada letra de música que consola um coração como o de minha avó, que após cinquenta anos de casada, teima em repetir os versos da mesma música ecoando pela casa vazia.

"Naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele, tá doendo em mim."

Dói em mim também, minha velha. Dói em mim também.




quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Te deixei passar



Te encontrei na rua semana passada e pensei em dizer olá. Passos tão despercebidos, cigarro na mão, rosto maquiado provavelmente desde cedo.

Entrei em uma banca de revistas e fiquei segurando a mão fechada entre o peito. O dono se assustou e perguntou se alguém havia tentado me assaltar, apenas respondi que minha asma atacou e precisava de um lugar para sentar.

Não, nesse dia você não estava com ele. Andava dona de si, talvez procurando seu carro estacionado em algum lugar onde não se lembrava. Quem sabe com duas ou quinze mensagens dele perguntando onde você está e querendo saber sobre o seu dia. 

Em que momento você deixou de querer saber sobre o meu?

Penso que talvez ele não queira empurrar receitas estranhas sob sua mesa e faça apenas macarrão com salsicha que é seu prato preferido. Nunca te fiz macarrão com salsicha, não é? Jurei que teríamos tanto tempo. Vai, não mente, cê também jurou.

Há um ano nesse mesmo minuto estávamos prontos para nos conhecer. Com dentes limpinhos e sorrisos tímidos. Como aquele riso que te vi entregar no dia em que fui na sua casa pela primeira vez, onde derrubou todos meus dvds no chão e encurvei os lábios como se tivesse conhecido a menina mais linda do mundo. 

Sofri sem a gente demais.

Sofri porque não podia mais te levar pães de queijo todo domingo. Sofri porque enfiei a saudade goela a baixo com tequila e tequila sempre me fez vomitar, mas dessa vez não vomitei. Acordei com febre e suor tantos dias e me arrastava até a maleta com os remédios para dormir a tarde inteira e não sentir dor. Noutros, o frio era tanto que vestia os casacos empoeirados e limpava cada gota de água que saia do meu olho com aquela poeira e sequer me importava.

Sofri porque mandei mensagem dizendo que não era justo o que o mundo fez com a gente, e tive como resposta a sua preocupação em não aguentar ver ele sofrer ao imaginar te perder, e por isso era melhor que eu sumisse de vez.

Sumi. Sumi devagarinho. Em cada esquina que vi apertarem a mão forte e em que apoiou sua cabeça no peitoral dele.  Sumi todas as vezes em que um amigo olhou pro lado quando falei seu nome e sumi quando percebi que no lugar da cama onde te abraçava, agora só me resta roupas usadas que não tenho a menor vontade de lavar.

Sumo quando sinto saudades. Quando te vejo andar na rua e preciso me esconder em uma banca de revistas para não chorar na sua frente e pedir explicação pela décima vez. 

Te ouvir dizer pela décima vez que não tem explicação.


Pensei em dizer olá, mas ao invés disso, te deixei procurar seu carro, dar partida, e passar pela banca de revista. 

Não quis causar problema, vai que ele fica sabendo e sofre?



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Amor não tem Ex




Hoje estava limpando sua parte do guarda roupa e encontrei uma camiseta minha em sua gaveta, o que não faz diferença pois tudo que é meu, era seu.

Sentei na cama indignado por não ter tirado tudo da gaveta e questionando se na verdade fiz de propósito para caso voltar, ter algo para vestir. Dormir sem roupa era uma coisa minha, você sempre gostava de usar camisetas largas mesmo no calor.

Pensei em mandar alguma mensagem perguntando se o tempo quente continua atacando sua gastrite e por isso precisa dormir no quarto da sua mãe com o ar condicionado. Se as noites de insônia, palheiro e música continua te fazendo ir para a janela toda noite olhar para a cidade meio parada, meio acesa, meio sem a gente.

Até quis te mandar uma receita que vi na GNT de um folheado incrível que faria passar a noite reclamando que te faço comer demais, mas não saberia viver sem nossos jantares na varanda aos domingos. Te recomendar um vinho que descobri sem jeito em um jantar de família, e quase roubei para beber escondido na sua casa de madrugada.

Comecei a me perguntar se continua estudando todos os dias pelo menos uma hora e se sua gata ainda esconde quando chega visita, mas quando pegamos no sono, amanhece em cima da nossa barriga. Me perguntei até se essa história de terminar de uma vez por todas não soou como babaquice em sua cabeça, afinal, o que foi mesmo que aconteceu com a gente?

Se aparecesse agora provavelmente iria me esconder. Desligar telefone, trocar endereço, calar o coração com o silêncio do pesar dos dias sem você.  Se voltasse para mim neste instante, diria que não lembro das suas manias e não resta nada seu pelo meu apartamento.

É que na realidade, cê nunca foi embora de verdade, sabe? E enquanto ouço falarem que é só mais uma ex, meu coração te lê como atual.



Como explicar isso tudo pra você, se tudo o que nos restou foi essa camiseta?



segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Pode pagar com amor?




Quando a gente cresce o amor não paga as contas.

O amor dos meus pais pagou minhas dívidas até sentirem vontade de rodar a Europa juntos em eterna lua-de-mel. Fiquei com o apartamento e dois cachorros. Apartamento não enche barriga e compra produto de limpeza, até mesmo os baratos, e xixi de cachorro não sai tão fácil como todos pensam. 

Por incrível que pareça as roupas não aparecem dobradas depois de lavar e o presente de Natal da minha namorada não surge como mágica embaixo da árvore. Como minha mãe pôde ir embora e esquecer de me passar o número da loja que a Débora gosta? Qual é mesmo o tamanho que ela veste? Acho que deve ter aumentado dois números. Débora deu uma engordadinha e ficou a coisa mais linda do mundo, mas mulher sempre acha que o "tal do homem" engana, não é mesmo? Talvez esse ano dê até chocolates de presente!

Arrumei um emprego mês passado! Tô orgulhoso demais! Pena que o dinheiro que sobra não compra mais que duas caixas de cerveja e oito camisinhas. Melhor diminuir a cerveja e comprar mais preservativo, acho que alimentar um filho é mais caro do que dar ração para o Rupert e a Lisa. 

Aliás, nunca passou pela minha cabeça que um pacote de ração é tão caro assim. Etâ diacho, quando emburrava com a mãe pelo safanão de não ter levado os cachorros para passear. Dizia que essa era minha única responsabilidade na vida e daqui uns anos iria sentir saudade. Tava certa, ô mulher que sabia cuidar desta casa. Homem é lerdo, sabe cuidar de tanta coisa assim não.

Minha namorada disse que amadureci demais depois que aprendi a comer pão com ovo pra não dormir com estômago roncando de fome. Não discordo, amor dela não paga as contas, mas me faz um bem danado,

Depois que a gente vai morar sozinho aparece amigo demais no apartamento, mas também desaparece vários quando a dispensa está vazia e o bolso furado. Vez ou outra o Fábio, meu amigo de infância, surge com uma carne e macarrão! O amor dele não paga minhas contas, mas sabe me encher de orgulho! Até dou conselhos sobre mulheres para ele, onde já se viu. Rapaz gordo e peludo como eu ensinando para o Fábio como impressionar meninas. 

Sei que tudo anda apertado e o país está nessa onda de crise, mas Débora disse que aceitaria comer pão com ovo todo final de semana só pra ficar ao meu lado assistindo esses desenhos que ela jamais vai entender. 

Minha mãe liga toda segunda para saber dos cachorros e perguntar se aprendi a fazer arroz soltinho, E o Fábio sonha em se formar e abrir um escritório comigo! O cara tem grana, mas sabe fazer valer o talento de não dar importância para dinheiro. Tem gente que sabe se valer a pena. 


O amor não paga as contas, mas que te faz ser rico pra caramba, ah, como faz!