segunda-feira, 27 de julho de 2015
A Parte Que Me Falta
Hoje fui até meu pote de comida e não havia ração. Mais uma vez minha dona se esqueceu de colocar antes de sair. A verdade é que já estou há algum tempo te esperando aparecer para dizer algumas coisas que estão engasgadas junto com as bolas de pelo na minha garganta. Só que é, eu sei, sei que não vai abrir a porta amanhã ou depois, por isso preferi vir pessoalmente te falar.
Ultimamente anda complicada as coisas lá em casa. É roupa jogada para todo canto, e falta petiscos toda semana. Todo dia alguém novo aparece e tenho de me esconder, se lembra como sou uma gata assustada, não lembra? Algumas dessas pessoas conheço há algum tempo, mas outras sequer sei se minha dona conhece, e confesso que nessas horas queria ser um cachorro para latir até expulsar quem quer que seja da minha casa, e te mandar voltar.
Quando essas pessoas vão embora, faço o possível para não a deixar sozinha.
Tenho de dizer que não é só ela que sente sua falta. Sinto falta de quando me abria a porta para dormir com vocês, e a forma que sempre me deixava ficar no meio. Gosto do jeito que ensinou ela a dizer meu nome no diminutivo e dos dias que a fazia ficar em casa mais tempo só para dormir. Sinto falta também do cheiro de comida que a casa tinha quando você existia por aqui. Agora só permanece enlatados e sacolas com entregas de todos os restaurantes da cidade.
Sou acostumada com abandonos. Sou uma gata de rua e fui abandonada por tanta gente. É o que tento dizer para ela quando não saio de seu lado e fico a olhando atentamente.
"Uma hora alguém te adota, vai por mim,"
Sei que ela me entende pois sempre me aperta forte quando a encosto. Acho que acabamos nos adotando desde que você foi embora.
Ela costuma dizer que uma hora vai passar. Que vai trocar o perfume que usa pois sabe que era o seu preferido, e por isso passou a usar só ele. Não entendo muito bem quando ela fica olhando atentamente para um ponto fixo no teto, sempre acho que é alguma mosca e que posso me divertir tentando fazer dela meu lanche da tarde, mas é só o teto. Sei que gatos não entendem muito bem os humanos, mas isso não é normal, é?
Tudo bem, não precisa dar explicações. Ela me disse mesmo que um gato nunca entenderia um coração de gente, ainda mais gente grande. Só vim aqui para dizer que desde da sua partida, minha casa não é a mesma, e minha dona tá partida ao meio. Metade dela deve estar por aqui, se importaria de procurar? Prometo que venho algum dia buscar sozinha.
Peço que não a entenda mal por todas as vezes que a cabeça esquentou, e te pediu para sumir. Tem dias que bagunço toda a caixa de areia e ela me pede para desaparecer, mas pouco tempo depois tudo se resolve. É uma pena tudo ter se resolvido com você indo embora de vez.
Está ficando tarde e talvez ela já tenha chegado, torço para que o pote de ração esteja cheio.
Mas caso não esteja, pode me dar um pouco de ração da sua gata?
Prometo que devolvo assim que vier buscar o pedaço da minha dona que ficou largado por aí.
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Só mais um dia ruim
Calma, cara.
Não deu tempo nem de procurar os óculos antes de ler que preciso juntar suas coisas e já está na hora de ir embora. O que eu faço com a garrafa de bebida que deixei no carro para te entregar no dia seguinte, e com as reservas do hotel na frente da praia que insistiu tanto? Nunca quis um quarto de frente para a praia, só precisava da cama e um espaço qualquer para suas roupas caras não se amassarem.
Foi alguma coisa que falei na semana passada? Lembro que comeu seu jantar tão calado e fiquei tentando puxar assunto sobre uma daquelas suas bandas favoritas, mas só me disse que tinha o CD e não era tão legal assim. Seu jeito de moço sério e sonhador ainda vai me destruir.
Cara, é sério, calma. Não entendo nada do que diz e pelo visto não sou só eu. Vamos viajar pra algum lugar só nós dois, comprar alguma velharia que dizem ser mística e pedir para algo além do amor proteger a gente, já que o amor parece tão frágil agora. Não me deu tempo nem de te ensinar a dirigir e de te mostrar o mundo com os meus olhos. Vai por mim, livros e filmes são divertidos, não tenta fugir antes de te mostrar que meu escritor preferido, sempre vai lembrar nós dois. Com o que diabos vai se lembrar de mim agora?
Pra quem vou explodir quando meus gatos derramarem toda a areia no banheiro e só quem entende o tamanho da bagunça é você, que sempre deitava esperando que limpasse logo para a gente tomar banho e sair. Tenta lembrar disso tudo, quem sabe seja o que está faltando na gente, lembrar.
Não me deixe perder a paciência e procurar na minha agenda mil outros rapazes que inventariam outro planeta para sair comigo. E, se de repente, alguém me achar especial e decidir ocupar o seu lugar, qual vai ser sua desculpa? Indecisão não enche coração de ninguém, e nesse caso, enche meus olhos de água.
Tá, tá tudo bem. Pode deixar que jogo sua escova de dentes que comprei no lixo e envio o seu casaco por correios. Se não sabe mais o que fazer aqui, não será minha saudade que vai te implorar para ficar. Ir embora é sempre mais fácil quando achamos que é uma decisão boa para os dois. Seu coração é fraco demais para enxergar além de um dia ruim, então continue a acreditar que será melhor para meus olhos, ouvidos, perna e pescoço ficar dia após dia sem te ver chegar.
Cara, vai em paz. O CD do Arctic Monkeys ainda vai continuar no meu carro e meus amigos vão continuar me dizendo que a gente não era pra dar certo. Nada vai mudar.
Só que quando a saudade do lado daí bater, será minha indecisão que não vai querer te ajudar.
Afinal, vou passar o resto dos dias me obrigando a entender que ir embora é o melhor para os dois.
-
Texto para um dos meus amores que sei, nunca há de ir embora, Igor Rodrigues.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Deixe as luzes acesas
O aeroporto estava lotado de horários marcados e roteiros atrasados. Ia pegar o avião para Guarulhos mas novamente o receio de embarcar. Verifiquei uma ou duas vezes se era por esquecimento. Carteira no bolso, passagem no blazer, malas fechadas e não, tudo ali. Quem sabe fosse um daqueles dias em que um ônibus parecia mais seguro, só de estar ali, navegando em terra firme.
Não sou um homem acostumado a viver sob regra do destino. Nem mesmo sei se acredito em destino. Estamos vivendo dia após dia em um efeito borboleta constante, não adianta culpar Moros por cada passo em falso no qual tropeçamos.
Fui casado duas vezes. Quando me perguntam com os olhos calibrados de pena se fiquei mais desiludido com o amor após os anos seguintes, solto um sorriso. Nunca sei o que dizer. Não sabia o que dizer sobre o amor até mesmo antes de me casar, e naquela época, no qual Legião Urbana estava no auge do seu sucesso, só passava em minha cabeça a resposta: "Eu só queria estar ali, sempre ao lado dela, eu não tinha onde ir."
Quando ela me deixou, minha juventude ainda existia. Foi fácil entender que seria passageira a vontade de arrancar o tórax por falta de ar no peito. Era só mais um camundongo velho passeando nos becos sujos de esgoto da cidade de São Paulo. Olhando meninas nos olhos e virando uma dose de 51 em seguida. Comecei a questionar se o amor na cabeça das pessoas, era a tal ausência de solidão. Quem te tira a solidão pode ser quem te faça feliz? É o que todos achavam.
Minha segunda esposa tinha pavor de avião. Sempre viajávamos de navio ou carro. Penso que se separar de alguém não te impede de viver para sempre com a sombra dela em sua vida. A convivência te traz partes de uma personalidade que a outra pessoa molda, e é só dela, mas acaba se tornando sua também. Sei que avião é seguro, mas ao sentar no banco, contei até dez e já verifiquei se o calmante estava no bolso de trás da calça.
Dessa vez em que me casei, ninguém perguntou se o amor era importante para mim. Só um louco casaria pela segunda vez com a mulher errada. Colocava meus Cd's do Renato Russo e a fazia ouvir todos os sábados, enquanto uma garrafa de vinho branco fazia residencia em nossa mesa. Me trazia torradas pela manhã e gritava quando o gato dormia em cima das suas roupas no armário. Seu sorriso apertava suas bochechas e os dentes pareciam brilhar mais do que os olhos. Casar não é fácil, ainda mais pela segunda vez. Lutar por algo que se gosta, não é fácil, nem que seja a oitava vez.
Prefiro não acreditar em destino. Prefiro não suportar a verdade de que algo além do meu controle fez minha segunda esposa morrer em um tempo qualquer. Onde nem ao menos pude dizer que foram suas calcinhas penduradas no chuveiro e seu cabelo esparramado na cama todas as manhãs, que me fez deixar de lado o medo de temer o amor. Quem sabe se tivesse deixado para fazer a surpresa das flores um dia antes, ou mentisse que estivesse doente para não trabalhar e passar o dia com ela, a morte não apareceria de surpresa e tiraria duas vidas assim tão facilmente. Quem permanece vivo também morre e o mundo me pegou em uma só fisgada.
Não pretendo me casar novamente. Quem sabe adote outro gato e compre novas garrafas de vinho. Continuarei dormindo todas as noites ouvindo ela cantar em meu ouvido sua música preferida.
Onde a abraçava forte, e dizia que já estávamos distantes de tudo,
pois nós temos todo o tempo do mundo.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Eu te detesto
Te vi entrar no altar sem pensar em impedir o casamento. Tudo já foi decidido antes no cartório, pensei. Só o que se passava na minha cabeça era que talvez aquele fosse o momento de jogar o pó de café fora, e comprar novos sachês de chá. O pó até vencido estava, mas não custava guardar. Logo pensei em comprar uma cama menor, meu gato havia se acostumado a dormir sempre do seu lado, e agora não encosta mais em mim pelas noites. Cansei de abraçar o travesseiro, quero ao menos meu gato de volta.
Detesto. Detesto sua mania de ir embora antes de chegar a sobremesa no restaurante, e detesto seu jeito de pedir com que eu aguente ficar mais algumas horas dançando sem me sentar. Detesto tudo que faz, e tudo que me impediu que pudesse fazer por nós. Seu jeito de controlar os sentimentos dos outros apenas com sua superioridade intacta e suas palavras mesquinhas.
Detesto você.
Agora não é mais problema meu, disse aliviado enquanto chutava uma tampinha de cerveja jogada na porta da igreja. Quem diria que amor se acaba com o tédio. Rouquidão do peito. E, por Deus, existe antibiótico para decisão alheia?
A vida não é um longa onde após me sentar no banco da praça, chegaria uma mensagem dizendo que talvez fosse uma escolha errada, e que não viajaria para a lua-de-mel. Chegou mensagem sim, mas de alguém chamando para beber em um bar qualquer. Bebida não resolve nada, ainda mais pra quem se ilude com a ideia de que perdeu tudo.
Já falei que detesto tudo que faz?
A indiferença é o menor dos problemas, o que está errado é você sentir falta de outro sorriso enquanto é o meu que se perdeu. Transfusão de amor nos dias atuais parece não ser tão caro de fazer, quem sabe não dê entrada na minha.
A verdade é que apesar de todas as coisas boas ainda rodearem minhas mãos, pernas e pescoço. não é mentira quando digo que te detesto. Não senti nada ao te ver entrando no altar vestida com um sorriso amargo de quem não tem pendências deixadas para trás. Não doeu nenhum pouco abrir a lata do lixo e jogar fora os desenhos que me fez e a sujeira que me deixou. Não há dor. Não há você.
De coração fechado, digo que talvez não houve despedidas pois você já havia se despedido quando beijava minha boca e dizia que me amava olhando para baixo. Detesto saber que tomou uma decisão por nós dois.
E sabe de uma coisa?
É um alívio saber que foi com ele que subiu ao altar, já que descobri que detesto tanto você.
terça-feira, 19 de maio de 2015
Terminei indo
Quando a gente decide que o melhor é ir embora, sempre fica uma palavra não dita na garganta. Uma vontade de perguntar nas noites de insônia como anda a vida, se continua esquecendo de tirar a lente antes de dormir e se já sabe cozinhar coisas novas. A gente nunca pergunta. Ter orgulho é mais cômodo do que enfrentar o amor duas vezes.
Odiar a distância. Odiar saber que se um dia aparecer na porta da sua casa, nada será dito, e há tanto para se dizer. Odiar, principalmente, saber que até os amigos dizem não ser certo voltar atrás, e talvez seja hora de encarar que algumas pessoas tem sorte, e a sua apareceu antes da minha.
Saber que não há culpado afinal de contas, mas sempre resta um pouco de culpa. Gastar toda a poupança em viagens, pois dizem que talvez é melhor sair um pouco da cidade e enfrentar o mundo com os pés no chão. Sentir, no fundo do peito, que não deveria escutar o que querem que a gente sinta mas mesmo assim, a gente escuta. Por medo. Medo de voltar atrás, medo de chorar, medo de provar pra si que mesmo com todas as noites na rua e amigos em volta, nossa casa era melhor. A gente era melhor.
E mesmo com tudo sendo perfeito e todos afirmando erroneamente e até o fim que o destino quis assim, seu coração acabou me mandando ir embora, e enquanto à mim?
Sofri, desesperei, gritei e implorei,
mas no final,
terminei indo.
(Ao som de Leave the bourbon on the shelf - The Killers)
(Ao som de Leave the bourbon on the shelf - The Killers)
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Tudo o que nos restou
O que tira é cada pedacinho nosso na rotina. O que muda é o meu lado da cama, que agora é dele, e também é outra cama. Não faz mais diferença se acordo mais cedo, pois agora quando abro os olhos no domingo de manhã, sei que está chegando em casa para fechar os seus. O que mudou foi só sua vontade de continuar deitando e morando no meu peito.
O apartamento parece bem maior agora. Sem seus passos da varanda para a cozinha, entre um cigarro e uma fome incontrolável de sabe se lá o que. A cama ficou tão pequena que até quando me encolho no frio, não tem espaço para mais nada.
Quando entramos nessa história de vamos ser felizes para sempre, não queria que pensasse que seríamos felizes sempre. Tem dias que o amor bate mais fraco, noutros, o amor sequer bate. Só não pensei que seu amor, iria bater em outra porta.
A verdade é que fomos embora. Sem olhar para o outro lado da estação e ver se chegaria o próximo metrô, quem sabe um mais vazio, onde desse para se despedir olhando nos olhos ao invés de ser levado pela multidão. Entramos no primeiro e por portas diferentes.
Sou aquele cara que sempre te indicará bons filmes e livros, mas não consegue te acompanhar nas noites de bebedeira e talvez seja melhor ir embora mais cedo, antes que perceba antes de mim, que ali não é o meu lugar. Sou aquele rapaz que te protege, enquanto você diz com o rosto coberto de lágrimas, que não chora por ninguém, e que percebeu antes de mim, que ali não é o meu lugar.
Uma pena que,
no fundo,
a gente sabe que era.
sábado, 25 de abril de 2015
O sol se ergueu e me acordou juntamente com ele. A cortina esquecida aberta, dispensando qualquer forma de escuridão do quarto e mesmo assim um sorriso pela manhã. Fechei rapidamente, suspirei fundo e olhei para trás como se não acreditasse na realidade. O sorriso voltou e deitei sem pressa. O tempo passava sem pressa.
Como é bom ter a sorte de um amor tranquilo.
Como é bom ter a sorte de viver e ainda ser surpreendido.
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