quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Temporário



Convenhamos, já fui melhor.

Hoje ninguém aceita um cara careta como eu nas costas. Evito multidões, não sei mais beber destilados e me contento com um filme sobre guerra em um sábado a noite.
Mal criei rugas e já peguei todas as meninas interessantes da minha cidade, e nenhuma foi interessante o suficiente para querer colocar um anel em seu dedo ou uma corrente em meu pescoço.
Mudo de ideia rápido, e isso faz com que meu melhor estado seja o neutro. Nada penso, nada falo, nada sinto.

Poderia alegar que sou triste e sozinho, mas não sou. De todas as pessoas que me relacionei, suguei o melhor, até a última gota, até a pessoa ir embora seca na amargura. Gosto de coletar momentos felizes e guardá-los só para mim, egoísta, mas útil para alguém que não sabe retribuir.

Não sei retribuir, ou apenas não gosto. Sentimentos não são feitos em pares, não há como alguém sentir a mesma coisa e passar para outrem. Nenhuma menina por mais chorosa ou fogosa que estivesse, me fez sentir borboletas no estomago. Uma vez achei que estivesse apaixonado, frio na barriga, mãos suando, sorriso de ponta a ponta... Foi o dia que descobri o tesão e descartei a ideia idealizada de paixão.

Tenho tesão pelas pessoas, poderia facilmente dizer: "eu tesôo você." Tão mais romântico, prático. Não preciso ficar discutindo sobre sentimentos e amor. Com tesão não há duvidas,  se duvida do meu tesão, meu quarto é aberto para quem afronta.

Empolgo fácil, converso muito e mudo de humor mais do que qualquer adolescente que finge ter problemas de bipolaridade por aí. Meu humor muda, mas meu coração não. Tenho um coração fechado que é encoberto pelo meu sorriso de bom moço, meu olhar de vítima e conversas de quem já viveu muito, mas na realidade... Nunca teve muita coisa para viver.

domingo, 9 de setembro de 2012

O homem que vendia o amor



*Olá, meu nome é Pedro e estou há dez anos sem amar.*

Ouvi palmas de todos os presentes na sala. Era uma sala pequena e com muitas cadeiras. Setenta e seis, contei. Qualquer coisa para me distrair naquela sala seria bem vinda, qualquer coisa que não fosse eu e meu falso moralismo. Fui para dar uma palestra de como era bom e libertador viver sem o amor para um grupo de pessoas que não sabiam sequer o que era isso.

Comecei como qualquer político de esquina começaria. Me levantei e fiquei diante de todos olhando fixamente para um ponto inexistente, fingindo estar envolvido com a multidão. Sorriso largo, aparência deslumbrante e um coração cheio de merda. Isso mesmo, merda. Essas merdas que fedem tanto que conseguimos sentir o cheiro de longe e desviamos o caminho. Tudo o que eles queriam eram uma maneira de deixar de depender de outrem, de se entusiasmar com novos gostos e peles. Isso era certo, daria de bandeja para eles. Rostos cheios de esperança, vontade de mudar, corrompidos por uma ideia tão entristecida . Só mostrei que sou um bom exemplo de homem que conseguiu superar uma mulher que não me merecia.

Meu nome é Pedro e sou um pastor de corações. Virei apenas um homem que precisa acreditar que as coisas tem sua ordem e motivo para acontecer, pois é vontade do destino, o senhor de todos os tempos.

Fingir felicidade é a coisa mais fácil do mundo. Vendo meu fingimento para as pessoas que querem recompor o coração. Mas o preço é caro para quem vende mentira.

Minha vontade todos os dias era mandar aquelas pessoas irem embora para pedir perdão aos seus maridos e esposas, fazerem sexo como selvagens para esquecer que houveram brigas.  Aprenderem a parar de choramingar pelos cantos implorando amor a quem não prometeu sequer paixão. Ah, essas pessoas de hoje amam esperando reciprocidade e acham bonito desdenhar o sentimento mais bonito de todos.

Sou um vendedor de almas. Pego todas as pessoas que vem jogar fora o amor, e sem perceberem, elas é que são jogadas no lixo.

Me chamam de Pedro, o pastor de corações, mas pode me chamar de o demônio dos que ainda estão vivos. Um ceifador dos que perdem suas almas na terra, dos que rejeitam um sentimento por, simplesmente, não saber o que fazer com ele.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

E se o "se" existisse?



Gostar é engolir o orgulho. Sentir ele bater na goela e a barriga retorcer para vomitar. Paixão não sai com refluxo, paixão não sai nem engolindo sabão e lavando o estômago quarenta vezes. Essa sensação de mal estar, frio que parece enojar todo o corpo: é só o orgulho não sabendo pra onde ir.

Uma vez ouvi dizer que para conseguirmos algo na vida, principalmente no amor, é necessário bater várias vezes na porta. Tem porta que é trancada a oito, nove, dez chaves. Não da nem para arrombar.

A vida não segue mansa. É como se cada palavra sufocada entre dentes quisesse ir pelo vento arranhar os ouvidos do sujeito. Ela não me ouviria nem que todos os microfones do mundo estivessem ligados na casa dela, no máximo do meu volume.

Não é um comentário sobre amor, paixões certeiras ou saudade acumulada. Só é uma reflexão de alguém que pensava que não tinha nada a perder, e acabou perdendo quase tudo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ser ou deixar de ser, eis a razão



Todo mundo é um só termo. Gosta ou não gosta, oito ou 80, ama ou odeia.
Todos se fazem de interessante para a menina da festa e de desinteressado para a mulher na cama. A lei dos mais fortes, um sempre se encontra em desvantagem e o que sempre buscamos é: Não ser quem vai embora com a interrogação presa na garganta. 

Tenho vinte e zero anos e sempre achei que sabia demais. Sobre mulheres, homens, amigos e lugares. Sei de  nada, nadinha. Sei nem o que comi ontem no almoço se não for dar uma olhada no lixo. Com o tempo fui percebendo que de um só termo, passei a ser meio termo.

Se ta bom, deixa estar. Se ta ruim, nada que não possa piorar. Se tô apaixonado e não tenho chances, pra quê desespero? Indiretas e suor frio descendo pelo pescoço? Me diga, PRA QUÊ?! A maioria das coisas que falo e penso não tem motivos, e é exatamente por isso que as penso.

Cansei de ter motivos para procurar uma razão. As vezes cansa, não é? Porra, talvez tô lá querendo que a guria me ache interessante e ela só quer um pouco de calma na vida. Dizer que vou em festas, sou dono da melhor boate e frequento os melhores países por hobbie, e ela só quer um cara que diga pra ela dormir cedo que amanhã precisa trabalhar.

Já perdi muitos amores da minha vida por acreditar que eu era o amor da vida delas. Não sou um cara interessante, sou só um cara que se esforça pra ser.

Podem não saber disso, mas sou até legal. Não é porque sorrio só de lado e digo que sexo é a melhor coisa do mundo que eu não tenha sentimentos, mas é que apaixonar fode muito e gozamos pouco. Não da pra entender.

Veja bem, não da pra ser interessante e apaixonado ao mesmo tempo. Um dos dois a gente tem que escolher. O problema é saber qual realmente a gente é, correndo o risco de, talvez, nunca querer ser.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Antes que eu vá


Sempre tive a impressão que ela não ficaria. É como se nela eu visse um desses homens que as mulheres vivem reclamando que não ligam de volta. A gente sabe reconhecer pelo olhar, pelas batidas rápidas do peito esquerdo. Tive que me ocupar de manias que antes odiava: jogar baralho com os amigos, beber destilados em casa de desconhecidos e dar uma de sociavelmente sociável. Ela odiava quando eu era sociável. Me dizia coisas como: "Para de querer aparecer pros seus amigos." Mas no fundo eu sabia que ela só não queria que aquelas meninas solitárias enxergassem um pouco de companhia em mim. Ela nunca dizia, mas eu precisava ser só dela.

Então passei a me encher de álcool e solidão. Essas solidões rodeadas de pessoas que textos clichês e redes sociais vivem falando. Mas a solidão clichê não sabe o que é ser sozinho esperando alguém que realmente existe. Alguém que já esteve ali pelos mesmos motivos que você quer que ela volte.  De qualquer modo, passei a virar um homem triste por dentro e de sorrisos cheirando a álcool por fora. 

Foi a pior fase da minha vida. Passei a fumar e criar planos que nunca seriam reais. Planos de viajar e ser só dela para a vida inteira, afinal, com todo o amor que tinha era impossível não voltar para mim. Por amor a gente volta até pro mais negro dos corações. 

Mulheres e sexo por um tempo foi uma distração compensatória, mas me esvaziava a cada tragada de cigarro que eu dava depois de um orgasmo forçado. Sozinho, triste e cantando poesias vazias pela fumaça que saia de minha boca.

De todas as mulheres que já deitei, gozei e esperei, ela foi a que mais me fez infeliz. Infeliz com sua partida e promessas deixadas na cabeceira da cama quando saiu. Hoje sei que meus amigos só me davam apoio moral, que os livros de auto ajuda só foram feitos para aumentar as prateleiras das livrarias e que o amor estraga até o mais alegre dos palhaços.

Não tenho volta, talvez porque ela também não tenha. Deve estar em alguma esquina por aí reclamando do tempo, da preguiça que sempre teve de voltar de sua faculdade até sua casa, achando que esqueceu alguma coisa enquanto andava com a cabeça nas nuvens.

 Talvez seja essa a nossa diferença: enquanto ela me esquece por ser distraída, me distraio só pra ver se a esqueço.


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Um amor no divã



A questão é que você sempre foi tão incerta, compreende? Dizer que era o fim nunca foi bem o fim, então pensava que só precisava ir lá, tomar seu ar e um pouco de vinho pra pensar melhor e voltar.

Claro, tinha os dias que tomava suas bebidas e acordava na cama de outro. Uma cama maior e com mais travesseiros do que a minha, daqueles que você afunda quando deita e não pensa em mais nada do lado de fora do prédio. Pensava até que o problema eram os meus travesseiros, por isso fui na melhor loja da nossa cidade e comprei tudo o que você queria, só pra te deixar feliz.

Sempre fiz tudo pra te deixar feliz, não fiz? Talvez por isso sempre voltou. Não, não era por mim. Tinha seus romances de duas semanas e festas cheirando a vodca barata, nesses dias, nunca me procurou. Quando me ligava era pra contar como conheceu um dos rapazes mais lindos e bem sucedidos que já encontrou andando por aí, e que seu coração perto dele parecia um tambor em pleno carnaval.

Essa é a hora que finjo ser seu ombro amigo, não é? Tudo bem, um riso forçado e um elogio de como você é linda para justificar o motivo do homem mais incrível do mundo ter ficado apaixonado por você. Eu poderia ser o homem mais incrível do mundo, mas pra você era só uma ligação pós festa e um encontro pra uma café na esquina da sua casa.

Sempre o lugar mais prático pra você, não? Só que eu não sou o cara mais incrível do mundo, e  o que faço é só pra te fazer feliz.

Passo dois dias decidindo uma roupa pra ir tomar o tal café, enquanto você passa dois dias pensando pra casa de quem vai no final de semana. O auge do meu mês é te ver, o auge do teu é conquistar o rapaz da academia que te ensina como evitar dores musculares.

Pensar que alguns anos atrás me dizia que seu sonho era envelhecer comigo e montar uma casinha de sapê no lugar mais afastado da terra. Levo tudo ao pé da letra, se lembra? Como aquela vez que me mandou te dar o mundo inteiro e te fazer feliz para sempre... Ainda tô tentando.

Só que sei, com o tempo você vai encontrar um cara  que vai te fazer feliz sem esforço, sem travesseiros novos e poemas amanhecidos ao lado de sua cama. Nesse dia eu vou sumir, sumir devagarzinho por dentro feito um caracol com medo.

Nunca vou ser esse tal cara incrível que você sempre procura, mas, se não for pedir demais... Só me deixa tentar ser.

sábado, 4 de agosto de 2012

O passarinho feio



 Quando era mais novo morava em uma vila na rua cinquenta e sete, o lugar mais triste para se viver. As árvores recebiam o silêncio da prefeitura e por isso eram secas e desnutridas, como essas crianças que vemos na África hoje em dia. Quase não fazia sol, o clima não era frio e por isso a sensação era de que sempre havia chovido. "Umidade em alta" - dizia os noticiários. Poucas casas, e vizinhos tão ranzinzas que os enxergava em preto e branco.

Minha família morava lá por falta de opção. Meus avós também eram pessoas em preto e branco, mas meus pais nasceram coloridos, e acho que eles também me enxergavam colorido. A única cantoria que se ouvia na rua cinquenta e sete era as do galo do Sr. Arnaldo - meu vizinho do lado esquerdo. Não era uma cantoria feliz. Pibou, tinha perdido uma das pernas em uma dessas brigas de galo de cidadezinhas vizinhas e seu cacarejar aparentava mais um pedido de socorro do que bom dia.

Naquela época não existia televisão, internet ou essas coisas pequenas que as pessoas levam nos bolsos. Sou um homem muito velho e tudo o que tive na minha vida desde criança foi minha imaginação e um pouco de memória na gaveta.

E foi de uma das minhas gavetas mais empoeiradas que me recordei de Volgo, meu passarinho de estimação.

Costumava ser um moleque que andava pelos quatro cantos da cidade e sempre descobria um novo lugar para se distrair. Uma dessas vezes quando percorria o bosque da mansão Peixoto, após ter entrado pelo muro sem ser percebido, me deparei com um passarinho preto jogado sem jeito no portão do jardim. Me aproximei e percebi sua asa quebrada e um pouco de sangue em seu bico. Não era um pássaro bonito, poderia muito bem se tornar protagonista de um desses filmes do Hitchcock sobre aves que matam e assombram toda uma cidade.

Mesmo assim levei para casa. Sabia que os meus pais iriam vir com o discurso de doenças que bichos de rua transmitem, por isso o escondi. Sei que se fosse um gatinho ou um cachorrinho eles me deixariam ficar com Volgo, mas ele era um pássaro feio e tudo que consideravam feio era ignorado.

Não foi difícil consertar sua asa quebrada, pelo contrário, tive aulas de primeiros socorros na escola quando criança e ele era um bom pássaro, quase não tentava fugir.

Depois de meses Volgo fugiu. Cheguei da escola e encontrei sua gaiola aberta e vazia com todo o alpiste que havia deixado naquela manhã. Sempre deixei sua gaiola aberta, nunca tentei segura-lo comigo, não queria que ele fosse um pássaro triste de uma cidade triste. Só que depois de tanto tempo comigo, andando em meu ombro e comendo a comida do pet shop da esquina... pensei que nunca partiria.

Claro que com a gaiola aberta ele dava voltas pela cidade, mas sempre voltava. Quando ele partiu meus pais pensaram que me encontrava em crise de adolescência, uma garota tinha partido meu coração ou coisa do tipo. Foi com Volgo que aprendi a lidar com a liberdade e que soube que o amor só é difícil quando acreditamos que ele nunca vai embora.

Ele era um pássaro feio de uma cidade triste com pessoas em preto e branco, que ocupou um dos lugares mais coloridos do meu coração. Pode ser só uma história de um velho solitário sentado na varanda de sua casa, mas perdi a conta de quantos passarinhos passaram por minha vida e queriam ter a liberdade de Volgo.


Talvez o amor tenha mesmo cheiro de liberdade.

Ou quem sabe, só aquela tal presença de saudade.